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Modelo de Educação Finlândes

por Sônia R. Aranha às 17:56 em: Educação

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Artigo de Philippe Descamp que saiu no Le Monde Diplomatique Brasil (aqui) , cujo título é O modelo finlândes: unanimidade que reproduzo abaixo:

Para entrar na escola primária de Rauma, na costa do Golfo de Bótnia, na Finlândia, não é preciso atravessar portões nem muros. Simplesmente se passa por uma garagem grande com uma bicicleta e jogos. Do ginásio à sala de música, tudo parece ter sido projetado para acolher as crianças. Em 45 minutos de curso, a professora de inglês encadeia cinco atividades diferentes. Ela capta a atenção já nos primeiros segundos, graças a uma bola que circula no mesmo compasso que a palavra. Um dispositivo que não é desconhecido nas salas de aula de outros países, mas, com uma média de 12,4 jovens para um professor finlandês – ou seja, um dos melhores índices para o ensino primário na Europa –, ele parece particularmente eficaz aqui.

Em meados de agosto de 2012, Fanny Soleilhavoup e Fabienne Moisy acompanharam os filhos em um segundo retorno a esse país. Professoras francesas com disponibilidade para acompanhar os maridos, elas não imaginavam que a escolha que fizeram em favor da escola local, em vez do estabelecimento francês à sua disposição, mexeria com sua visão de educação. “Meus três filhos estão se transformando em pessoas de bem”, acrescenta Claire Herpin, decidida a permanecer longe da França. “Nós respeitamos suas diferenças. Eles respeitam os outros. Os professores sabem como incentivá-los e como reforçar o que há de melhor neles.” Dislexia, simples perda de interesse ou precocidade, essas famílias estavam diante de situações até comuns, mas que o sistema francês dificilmente levaria em consideração.

Alguns vão achar difícil acreditar no que elas descrevem: uma escola sem tensão, sem competição entre os alunos, sem concorrência entre as instituições, sem inspetores, sem repetência, até mesmo sem nota nos primeiros anos, e que teria os melhores resultados do mundo.

As pesquisas do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) suscitam grande preocupação na Alemanha e no Reino Unido, enquanto na França e nos Estados Unidos, mais bem classificados, elas são pouco comentadas. Apesar de seus investimentos na educação, esses grandes países aparecem apenas na média da OCDE para as capacidades de jovens de 15 anos em compreensão da escrita, matemática e ciências.1 Além do rigor metodológico que visa descartar qualquer viés cultural, essas avaliações têm a vantagem de não tratar do aprendizado de um programa, mas de um conjunto de competências úteis para entender o mundo e resolver problemas nos contextos próximos da vida cotidiana.

Essas investigações revelaram Helsinque como um modelo inesperado. No resultado de 2009, que levava em conta 65 países, assim como nos três anteriores (2000, 2003 e 2006), a Finlândia aparece no grupo dos melhores desempenhos globais, como a Coreia do Sul e muitas cidades asiáticas parceiras da OCDE (Xangai, Hong Kong e Cingapura). É também o país (com a Coreia do Sul) cujos resultados são os mais homogêneos e no qual as correlações entre o meio socioeconômico e os desempenhos escolares parecem as mais fracas. Noventa e três por cento dos jovens finlandeses concluem o ensino médio, contra apenas 80% em média nos países ocidentais.2 O país se destaca, é verdade, por um dos mais baixos níveis de desigualdade social da OCDE.

Os resultados do Pisa atraíram um novo tipo de turista. Após uma visita em agosto de 2011, o então ministro francês da Educação Nacional, Luc Chatel, explicou: “Há uma série de receitas que vi funcionar aqui, que podem ser transpostas”, sobretudo “a grande autonomia dada às escolas”.3 Um ano depois, a revista britânica Socialist Review elogiava um sistema “desprovido de avaliações” e no qual “cada criança recebe um almoço saudável ao meio-dia”.4 Quer venham da direita liberal francesa ou do trotskismo inglês, cada observador estrangeiro vem fazer sua feira, em busca dessa ou daquela inovação que, isolada do resto, validará seu próprio projeto.

Na maioria das vezes, a imprensa internacional ignora as condições específicas da gênese do “modelo”, ao qual várias obras cativantes foram consagradas.5 No entanto, aqui, “descentralização” não é sinônimo de territórios em competição; falar de “envolvimento” dos professores não se resume à vontade de aumentar suas horas de “presença” nas escolas; e promover a “moderação” das despesas não disfarça o desejo de favorecer prestadores privados. “Esqueçam o Pisa!”, dispara Jukka Sarjala, um dos arquitetos da reforma escolar na década de 1970. “É claro que estamos orgulhosos desse reconhecimento do nosso trabalho. Mas temos de olhar para nosso sistema como um todo, e não bicar esse ou aquele aspecto.”

O sucesso finlandês tem suas raízes na tradição política dos países nórdicos, ligada às realizações concretas do Estado de bem-estar social, mais do que a uma doutrina. Instado a revelar a elogiada receita pedagógica em uma mesa-redonda da rede de televisão norte-americana PBS, em 10 de dezembro de 2010, o professor Pasi Sahlberg respondeu com um amplo sorriso: “Você sabe, entre nós a escola é gratuita para todos, desde o curso preparatório até a universidade!”. Com base nesses pressupostos, é difícil levar adiante comparações com o modelo dos Estados Unidos…

Na Finlândia, a gratuidade não se aplica apenas ao ensino. Até os 16 anos, todos os suprimentos são bancados pela comunidade, bem como o apoio escolar, a cantina, as despesas de saúde e o transporte para a instituição. O financiamento vem principalmente dos 336 municípios, mas o Estado central harmoniza a distribuição dos recursos. Se por um lado ele participa com apenas 1% do orçamento da escola no município mais rico, Espoo (perto de Helsinque), por outro, ele garante 33% dos recursos na média dos municípios,6 chegando a até 60% nas comunidades pobres. O governo também desestimula a abertura de escolas privadas. Elas praticamente desapareceram na década de 1970 (menos de 2% dos efetivos, contra 17% na França), com exceção de escolas associativas de pedagogias alternativas, do tipo Steiner ou Freinet.

Esse serviço público unificado não se mostra particularmente caro, muito pelo contrário. Em paridade de poder aquisitivo, a Finlândia gasta menos dinheiro por aluno no ensino primário e secundário do que a média dos países ocidentais, e muito menos do que os Estados Unidos ou o Reino Unido.7 A ênfase foi colocada na qualidade da supervisão, no número e na formação dos professores: a profissão do magistério tornou-se altamente respeitada e muito cobiçada, ainda que exija uma longa formação (pelo menos cinco anos de universidade, em geral mais) e que os salários acompanhem mais ou menos a média ocidental:8 significativamente mais altos do que os salários franceses no início de carreira (36% mais no fundamental, 27% no médio), eles se aproximam no fim da carreira. Apenas um candidato a professor em dez atinge seu objetivo. Também se espera dos docentes um envolvimento tão forte que não é incomum que alguns confiem seu número de telefone ou endereço de e-mail aos pais. Uma boa parte da formação (no mínimo um ano) não é dedicada ao conteúdo a ser transmitido, mas à pedagogia: a maneira de transmitir.

Ameaça no horizonte

Enquanto o modelo internacional se baseia em indicadores de desempenho, auditorias e rankings, os pedagogos finlandeses defendem outro uso das avaliações. Elas devem continuar a ser uma ferramenta para ajuste dos meios ou dos métodos a serviço do desenvolvimento de professores e crianças, nunca uma ferramenta de controle ou de competição. É por isso que as avaliações são realizadas por amostragem, e não em nível nacional. Cada um fica sabendo de seus resultados, mas não os de outras escolas. Vários municípios também lutaram contra os jornais que queriam publicar as classificações. E, quando os tribunais deram perda de causa à administração, boa parte da imprensa preferiu guardar silêncio.

“Na década de 1990, encorajou-se a competição entre as escolas, e um conservador eleito de Helsinque chegou a convidá-las a fazer publicidade. Hoje entendemos que foi um erro”, explica Susse Huhta, professor de finlandês em Helsinque. Com a abolição da obrigatoriedade de frequentar a escola de seu bairro, a busca pelas escolas mais conceituadas, até então marginal, tornou-se um fenômeno importante na capital, onde 30% das crianças no oitavo ano (13 anos) não frequentam o estabelecimento da sua região. Isso só fez provocar um rápido crescimento das desigualdades sociais na Finlândia, segundo Tuomas Kurttila, diretor da Associação de Pais: “Nossa política educacional corre o risco de se tornar uma simples vitrine, enquanto nossas políticas sociais se degradam. Os sucessos de hoje foram construídos nas décadas de 1970 e 1980. O sucesso de amanhã se constrói hoje. Ainda há muitas crianças que não vão além da escolaridade obrigatória. Estou otimista, mas temos de permanecer vigilantes diante do crescimento das disparidades”. “Pedimos à escola que responda a todos os problemas da sociedade, algo que ela dificilmente pode fazer”, acrescenta Petri Pohjonen, vice-diretor do Escritório Nacional de Educação.

Depois de ter dirigido por um longo tempo uma escola e em seguida o departamento de ensino da cidade de Vantaa, vizinha a Helsinque, Eero Väätäinen resume um sentimento generalizado entre os professores finlandeses: “Devemos ter em mente que as crianças não estão na escola para passar nas provas. Elas vêm aprender a vida, encontrar seu próprio caminho. É possível medir a vida?”. No país europeu mais bem colocado nos rankings internacionais, as pessoas veem com muita desconfiança… os rankings.

Philippe Descamps – Jornalista

1 OCDE (2011), Résultats du Pisa 2009 [Resultados do Pisa 2009], em seis volumes, Edição OCDE, Paris.
2 Estatística da OCDE, 2010.
3 “En visite en Finlande, Chatel prépare la rentrée et 2012” [Em visita à Finlândia, Chatel prepara o retorno em 2012], Les Échos, Paris, 19 ago. 2011.
4 Terry Wrigley, “Growing up in Goveland: how politicians are wrecking schools” [Crescer em Goveland: como os políticos estão destruindo escolas], Socialist Review, Londres, jul.-ago. 2012.
5 Paul Robert, La Finlande: un modèle éducatif pour la France? Les secrets de la réussite [Finlândia: um modelo educacional para a França? Os segredos do sucesso], ESF Editor, 2008. Pasi Sahlberg, Finnish lessons: what can the world learn from educational change in Finland? [Lições finlandesas: o que o mundo pode aprender com a mudança educacional na Finlândia?], Teachers College Press, 2011. Hannele Niemi, Auli Toom e Arto Kallioniemi, Miracle of education, the principles and practices of teaching and learning in Finnish schools [Milagre da educação: os princípios e práticas do ensino e do aprendizado nas escolas finlandesas], Sense Publishers, 2012.
6 Dados do Escritório Nacional de Educação, agência independente encarregada do acompanhamento dos programas e da avaliação do ensino médio e fundamental.
7 OCDE, Regards sur l’éducation [Olhares sobre a educação], 2010.
8 Idem.

 

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Andreas Schleicher nos conduz ao teste PISA, uma avaliação global que classifica países, comparando-os entre si — e então usa esses mesmos dados para ajudar a melhorar as escolas.

Assista para descobrir onde o nosso país se enquadra e aprenda o fator singular que faz alguns sistemas superar os outros.

 

 

Transcrição da palestra no TED:

A abertura radical ainda é um futuro distante na área da educação escolar. Temos grandes dificuldades em compreender que o aprendizado não é um lugar, mas uma atividade.

Mas quero contar a vocês a história do PISA, o teste da OECD, que mede os conhecimentos e habilidades de adolescentes de quinze anos de idade, ao redor do mundo, e é realmente uma história sobre como as comparações internacionais globalizaram a área da educação, a qual geralmente tratamos como um assunto de política interna.

Vejam como o mundo era nos anos 60, no que diz respeito à proporção de pessoas que completaram o ensino médio. Vocês podem ver os Estados Unidos à frente de todo mundo, e muito do sucesso econômico dos Estados Unidos deve-se à sua superioridade, de longa data, como pioneiro na educação. Mas nos anos 70, alguns países alcançaram os EUA. Nos anos 80, a expansão global do grupo de talentos continuou. E o mundo não parou nos anos 90. Então, nos anos 60, os EUA eram os primeiros. Nos anos 90, eram o décimo terceiro, e não porque os padrões diminuíram, mas porque houve um avanço muito mais rápido em outros lugares.

A Coreia nos mostra o que é possível realizar em educação. Duas gerações atrás, a Coreia tinha o padrão de vida do Afeganistão de hoje, e tinha um dos piores desempenhos em educação. Hoje, todo jovem coreano termina o ensino médio.

Então, isso nos mostra que, na economia global, o desenvolvimento nacional não é mais referência de sucesso, mas o melhor desempenho dos sistemas educacionais, em nível internacional. O problema é que mensurar quanto tempo as pessoas gastam na escola, ou que diploma elas têm, nem sempre é a melhor maneira de avaliar o que elas, de fato, podem fazer. Vejam a mistura tóxica de graduados desempregados em nossas ruas, enquanto os empregadores dizem que não conseguem contratar pessoas com as habilidades de que precisam. E isso nos mostra que melhores diplomas não significam, necessariamente, melhores habilidades, melhores empregos ou melhores vidas.

Então com o PISA, tentamos mudar isso, mensurando o conhecimento e as habilidades das pessoas de forma direta. E partimos de uma perspectiva bem específica. Estávamos menos interessados na capacidade dos alunos de reproduzir o que aprenderam na escola, e mais em avaliar se eles são capazes de utilizar o conhecimento que possuem, aplicando esse conhecimento em situações novas. Algumas pessoas nos criticaram por isso, dizendo que essa maneira de medir resultados é muito injusta com as pessoas, pois avaliamos alunos com problemas que nunca haviam visto antes. Mas, sabe, se pararmos para pensar, veremos que a vida é injusta, pois o verdadeiro teste da vida não é se podemos nos lembrar do que aprendemos na escola, mas se estamos preparados para mudança, se estamos preparados para empregos que ainda não existem, para usar tecnologias que ainda não foram inventadas, para resolver problemas que não podemos antecipar hoje.

E depois de muito contestada, nossa maneira de medir resultados, na verdade, se tornou rapidamente o modelo. Em nossa última avaliação em 2009, medimos setenta e quatro sistemas escolares que, juntos, somavam 87% da economia. Este gráfico demonstra o desempenho dos países. Em vermelho, um pouco abaixo da média da OECD. Amarelo é mais ou menos, e em verde estão os países que estão muito bem. Podemos ver Xangai, Coreia e Cingapura, na Ásia; Finlândia, na Europa; Canadá, na América do Norte, se saindo muito bem. Vocês podem ver também que há uma diferença de quase três anos escolares e meio, entre alunos de quinze anos de Xangai e do Chile, e a diferença aumenta para sete anos escolares, ao incluir países com desempenho muito ruim. Há uma enorme discrepância na maneira pela qual os jovens são preparados para a economia atual.

Mas quero apresentar um outro aspecto importante nesse quadro. Os educadores gostam de falar sobre igualdade. Com o PISA, queríamos medir como eles oferecem essa igualdade, em termos de assegurar que pessoas de diferentes origens sociais tenham oportunidades iguais. E notamos que, em alguns países, o impacto da origem social nos resultados do aprendizado é muito forte.

As oportunidades não são distribuídas igualmente. O potencial de muitas crianças é desperdiçado. Vemos em outros países que o contexto social em que se nasce é muito menos importante. Todos queremos estar ali, no quadrante direito superior, onde o desempenho é alto e as oportunidades de aprendizado são distribuídas igualmente. Ninguém, ou país algum, pode se contentar em estar ali, onde o desempenho é baixo e há disparidades sociais enormes. E daí podemos debater: é melhor estar ali, onde o desempenho é alto às custas de grandes disparidades, ou é melhor enfocar a igualdade e aceitar a mediocridade?

Na verdade, ao observar como os países aparecem nesse quadro, vemos que há muitos países que realmente combinam excelência com igualdade. De fato, uma das lições mais importantes dessa comparação é que não é preciso comprometer a igualdade para alcançar a excelência. Esses países deixaram de oferecer excelência apenas a alguns, para oferecer excelência a todos, uma lição muito importante. E isso desafia também os paradigmas de muitos sistemas escolares que creem ter, essencialmente, o papel de escolher pessoas. E desde que esses resultados foram divulgados, políticos, educadores, pesquisadores de todo o mundo tentaram decifrar o que está por trás do sucesso desses sistemas.

Mas vamos voltar por um instante, e falar dos países que, na verdade, deram início ao PISA. Eles aparecem agora como círculos coloridos. E estou deixando o tamanho do círculo proporcional ao volume de dinheiro que eles gastam com alunos. Se dinheiro fosse tudo, no que diz respeito à qualidade dos resultados do aprendizado, encontraríamos os círculos maiores na parte de cima, certo? Mas não é isso o que se observa. O gasto por aluno explica apenas cerca de menos de 20% da variação de desempenho entre os países. Luxemburgo, por exemplo, o sistema mais caro, não se sai muito bem. O que se observa é que dois países com gasto similar alcançam resultados muito diferentes. Observa-se também — e acho que é uma das descobertas mais animadoras — que não vivemos mais num mundo nitidamente dividido entre países ricos e com boa educação, e países pobres e com educação ruim. Uma lição muito importante.

Vamos observar isso em maiores detalhes. O ponto vermelho mostra o gasto por aluno em relação à riqueza do país. Uma maneira de se gastar dinheiro é pagando bem aos professores, e na Coreia se observa um grande investimento para atrair os melhores profissionais para a docência. A Coreia também investe em escolas de tempo integral, o que aumenta mais os gastos. E por último, os coreanos querem que seus professores não apenas ensinem, mas também se desenvolvam. Eles investem em desenvolvimento profissional e colaboração, e muitas outras coisas. Tudo isso custa dinheiro. Como a Coreia pode custear tudo isso? A resposta é que os alunos coreanos estudam em turmas maiores. É a barra azul, que puxa os custos para baixo. Vamos ao próximo país da lista, Luxemburgo, e percebemos que o ponto vermelho está no mesmo nível da Coreia, pois Luxemburgo tem o mesmo gasto por aluno que a Coreia. Mas, sabe, pais, professores e políticos, em Luxemburgo, gostam de turmas pequenas. Sabe, é muito agradável entrar numa classe pequena. Então, eles investiram todo seu dinheiro nisso, e a barra azul, tamanho da turma, puxa os custos para cima. Mas mesmo Luxemburgo não tem dinheiro de sobra, e o preço disso é que os professores não são pagos muito bem. Os alunos não têm muitas horas de aprendizado. Basicamente, os professores têm pouco tempo para fazer qualquer coisa além de lecionar. Então, é possível ver dois países gastarem de forma muito diferente, e, na verdade, a maneira como gastam seu dinheiro é muito mais importante do que o quanto investem em educação.

Vamos voltar ao ano 2000. Lembrem-se, foi um ano antes de o iPod ser inventado. Era assim que o mundo era naquela época, em termos de desempenho no PISA. A primeira coisa que se observa é que os círculos são bem menores, não? Gastávamos muito menos em educação, cerca de 35% a menos. Então, pergunte a si mesmo: se a educação se tornou tão mais cara, ela se tornou melhor? E a triste verdade é que, sabe, não em muitos países. Mas há alguns países que experimentaram um avanço impressionante. A Alemanha, o meu país, no ano 2000, estava no quadrante inferior, abaixo da média de desempenho, com grandes disparidades sociais. E, lembrem-se, a Alemanha era um desses países que se saem muito bem, quando consideramos apenas pessoas com diplomas. Resultados decepcionantes. As pessoas ficaram pasmas com os resultados. E pela primeira vez, o debate público na Alemanha girou, durante meses, em torno da educação, não impostos ou outros assuntos, mas a educação era o centro do debate público. Então, os políticos começaram a reagir a isso. O governo federal aumentou drasticamente o investimento em educação. Muito foi feito para ampliar as oportunidades dadas a alunos de origem imigrante ou em desvantagem social. E o mais interessante é que não foi apenas uma questão de otimização de políticas já existentes, mas os dados mudaram algumas das crenças e paradigmas que eram o alicerce da educação alemã. Por exemplo, tradicionalmente, a educação infantil era vista como coisa de família, e havia situações em que mulheres eram vistas como negligentes em suas responsabilidades familiares, quando mandavam seus filhos para o jardim de infância. O PISA transformou esse debate, e colocou a educação pré-escolar bem no centro da política pública na Alemanha. Ou, tradicionalmente, a educação alemã divide as crianças, aos dez anos de idade, muito novas ainda, entre as destinadas a seguir carreiras de trabalho intelectual, e aquelas que acabariam sendo empregadas dos primeiros, e isso com base, essencialmente, em aspectos socioeconômicas, e esse paradigma também está sendo contestado agora. Muitas mudanças.

A boa notícia é que, nove anos depois, é possível ver avanços em qualidade e igualdade. As pessoas assumiram o desafio, e fizeram algo a respeito.

Ou, vejamos a Coreia, na outra extremidade do espectro. No ano 2000, a Coreia já estava muito bem, mas os coreanos temiam que apenas uma pequena parcela de seus estudantes alcançassem os níveis mais altos de excelência. Eles assumiram o desafio, e a Coreia foi capaz de dobrar a proporção de estudantes que alcançam a excelência no campo da leitura, em uma década. Bem, ao enfocar apenas os alunos mais brilhantes, o que acontece é que as disparidades aumentam, e é possível ver esse círculo se movendo levemente para outra direção, mas mesmo assim, um avanço impressionante.

Uma grande reforma na educação da Polônia ajudou a reduzir drasticamente o desnível entre escolas, a mudar muitas escolas com baixo desempenho, e aumentar o desempenho em mais de meio ano escolar. E é possível ver outros países também. Portugal foi capaz de consolidar seu sistema escolar fragmentado, aumentar a qualidade e melhorar a igualdade, assim como a Hungria.

Então, é possível ver que aconteceram muitas mudanças. E mesmo essas pessoas que reclamam e dizem que a posição relativa dos países em algo como o PISA é apenas um produto da cultura, de fatores econômicos, de questões sociais, da homogeneidade de suas sociedades, e assim por diante, essas pessoas, agora, devem admitir que a melhoria da educação é possível. Sabe, a Polônia não mudou sua cultura. Não mudou sua economia, não mudou a composição de sua população. Não demitiu professores. A Polônia mudou sua política educacional e sua prática. Muito impressionante.

E tudo isso, é claro, levanta a questão: o que podemos aprender desses países no quadrante verde, que alcançaram níveis altos de igualdade, de desempenho, e aumentaram os resultados? E, claro, a questão é: o que funciona num contexto pode servir de modelo para outro contexto? É claro, não se pode copiar e colar sistemas educacionais por atacado, mas essas comparações têm identificado uma gama de fatores que sistemas de alto desempenho têm em comum. Todo mundo concorda que educação é importante. Todo mundo diz isso. Mas o teste da verdade é: como pesamos essa prioridade em relação a outras prioridades? Como os países pagam a seus professores, em comparação com outros trabalhadores qualificados? Você gostaria que seu filho se tornasse professor, ao invés de advogado? Como a mídia fala sobre escolas e professores? Essas são questões cruciais, e o que aprendemos com o PISA é que, em sistemas educacionais de alto desempenho, os líderes convenceram seus cidadãos a fazer escolhas que valorizam a educação, seu futuro, mais do que o consumo, hoje. E sabem o que é interessante? Vocês não vão acreditar, mas há países em que o lugar mais atrativo não é o shopping center, mas a escola. Essas coisas existem de verdade.

Mas valorizar a educação é só uma parte do quadro. A outra parte é acreditar que todas as crianças são capazes de ter sucesso. Há alguns países onde os estudantes são segregados desde cedo. Sabe, os estudantes são divididos, refletindo a crença de que apenas algumas crianças podem alcançar os melhores padrões do mundo. Mas, geralmente, isso está ligado a disparidades sociais muito fortes. Se você vai ao Japão, na Ásia, ou à Finlândia, na Europa, os pais e professores, nesses países, esperam que todo estudante seja bem sucedido, e é possível ver isso refletido no comportamento do aluno. Quando perguntamos aos estudantes o que é necessário para ter sucesso em matemática, estudantes, na América do Norte, normalmente responderiam: “Sabe, é uma questão de talento. Se não nasci sendo um gênio na matemática, é melhor estudar outra coisa.” Nove em cada dez estudantes japoneses dizem que isso depende de meu próprio investimento, meu próprio esforço, e isso diz muito sobre o sistema que os cerca.

No passado, estudantes diferentes eram ensinados de forma parecida. Os que têm melhor desempenho no PISA abraçam a diversidade, com práticas pedagógicas diferenciadas. Eles percebem que estudantes comuns têm talentos extraordinários, e eles personalizam as oportunidades de aprendizado.

Os sistemas de alto desempenho também compartilham padrões claros e ambiciosos, em todo o espectro. Todo estudante sabe o que importa. Todo estudante sabe o que é preciso para ser bem sucedido.

E em lugar nenhum a qualidade do sistema educacional supera a qualidade de seus professores. Os sistemas de alto desempenho são muito cuidadosos em como recrutam e selecionam seus professores, e em como os treinam. Eles se preocupam em melhorar o desempenho dos professores que estão tendo dificuldade, e em estruturar o salário do professor. Eles proporcionam um ambiente em que os professores trabalham juntos na construção de boas práticas. E disponibilizam meios inteligentes para que os professores cresçam em suas carreiras. Em sistemas escolares burocráticos, os professores geralmente são deixados sozinhos em salas de aula, com um monte de regras quanto ao que devem ensinar. Sistemas de alto desempenho são muito claros a respeito do que é um bom desempenho. Eles estabelecem padrões muito ambiciosos, mas capacitam seus professores a decidir: o que eu preciso ensinar aos meus alunos hoje? No passado, educação tinha a ver com repasse de conhecimento. Agora, o desafio é possibilitar o conhecimento autogerado. Os sistemas de alto desempenho mudaram de formas administrativas de gestão e controle — ou seja, como saber se as pessoas estão fazendo o que tem de fazer, na educação — para formas profissionais de organização de trabalho. Eles permitem que seus professores façam inovações na pedagogia. Os professores contam com o tipo de desenvolvimento que precisam para criarem práticas pedagógicas mais fortes. O objetivo do passado era a padronização e submissão. Os sistemas de alto desempenho tornaram seus professores e diretores escolares criativos. No passado, o foco político estava nos resultados, em providências. Os sistemas de alto desempenho ajudaram os professores e diretores escolares a observar o professor vizinho, a escola vizinha, que estão ao seu redor.

Os resultados mais impressionantes dos sistemas de alto nível se devem ao fato de alcançarem alto desempenho no sistema como um todo. Vimos a Finlândia indo muito bem no PISA, mas o que torna a Finlândia mais impressionante é que há somente 5% de variação de desempenho entre estudantes de escolas diferentes. Todas as escolas são bem sucedidas. É assim que o sucesso torna-se sistêmico. E como eles fazem isso? Eles investem recursos onde eles podem fazer maior diferença. Eles atraem os diretores mais fortes para as escolas mais difíceis, e os professores mais talentosos para as salas de aula mais desafiadoras.

Por último, esses países alinham políticas em todas as áreas de política pública. Eles fazem com que sejam coerentes, por longos períodos de tempo, e asseguram que tudo seja consistentemente implementado.

Agora, conhecer o que os sistemas bem sucedidos estão fazendo ainda não nos mostra como melhorar. Isso também está claro. Aí é que surgem alguns dos limites nas comparações internacionais do PISA. É onde outras formas de pesquisa precisam intervir, e é também a razão pela qual o PISA não se aventura em dizer aos países o que eles devem fazer, mas sua força reside em dizer a eles o que todo mundo está fazendo. E o exemplo do PISA mostra que os dados podem ser mais poderosos que o controle administrativo de subsídio financeiro, pelo qual os sistemas educacionais são conduzidos.

Sabe, algumas pessoas argumentam que mudar a administração educacional é como mover cemitérios. Você não pode contar com as pessoas de lá para ajudá-lo a fazer isso. Mas o PISA mostrou o que é possível na educação. Ele ajudou países a ver que a melhoria é possível. Ele eliminou as justificativas daqueles que são complacentes. E ele ajudou países a estabelecer alvos significativos, em termos de objetivos mensuráveis alcançados pelos líderes mundiais. Se pudermos ajudar toda criança, todo professor, toda escola, todo diretor, todo pai a ver que é possível melhorar, que apenas o céu é o limite para a melhoria da educação, então criamos o alicerce para políticas melhores e vidas melhores.

Obrigado.

(Aplausos)

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