Por Luis Carlos de Freitas

Os BRICs ou seja, os países emergentes (China, Russia, India, Brasil) desaceleraram, ainda que não estejam mortos. Entre eles, a China é a rainha destes detendo reservas de 3.5 trilhões, de um total de 5 trilhões que os BRICs acumulam. Significa que todos os outros têm 1.5 trilhão, contra 3.5 da China. Apesar disso, os PIBs patinam.

A questão é: terá esta desaceleração efeitos sobre as políticas educacionais.

Creio que sim.

E elas podem ser pelo menos de dois tipos: se for um recuo passageiro, voltará a pressão por mão de obra e por mão de obra barata. Não havendo mais bolsões no Brasil a serem explorados, terão que aumentar a produtividade e isso exige mais “qualidade” da educação (leia-se maior número de formandos). Mais gente formada, menor salário médio.

Caso seja um ciclo mais longo de recuo, teremos outros dois possíveis desdobramentos: a) a pressão por mão de obra diminui e desacelera as políticas de reforma empresarial da educação; ou b) culpar-se-á a educação pela desaceleração econômica e a pressão sobre as políticas educacionais será maior ainda (até mesmo com o apoio das manifestações da rua). Creio que será este o caminho que seguirão os reformadores empresariais.

Recentemente o cálculo do IDH abriu esta discussão. O IDH brasileiro passou de 0,52 em 1980 para 0,73 em 2012. Alguns interpretam os resultados do nosso IDH como sendo puxado para baixo pela educação. Mas note, por outro lado, não podem deixar de admitir que historicamente o impacto da educação no IDH é um dos que mais avançou nas ultimas décadas, 128%. Passamos de 2,6 anos de estudo em 1980 para 7,2 anos de estudo em 2012 (ver matéria de Delfim Neto abaixo, no entanto). Se olhamos para o impacto do aumento da renda da população, outro componente do IDH, veremos que avançou bem menos, apenas 14%, ou seja, a renda per capita passou de 7.317 dólares (em 1980) para 10.152 dólares (em 2012) – e veja-se matéria abaixo sobre concentração de renda. Ora, como pode então o ítem que mais avançou ser responsável pela redução do IDH. O terceiro item da cesta é a longevidade, a qual avançou 23% de uma expectativa de  62,5 anos de vida para 73,8 anos.

Parece claro, portanto, que são renda e condições de vida que não avançaram e que estão segurando o IDH. Quem é responsável pela renda? Os empresários que pagam os salários. Mas é mais fácil culpar a educação, ocultando as reais causas.

Como dado complementar sabemos que as pontuações nos exames nacionais refletem nível socioeconômico e quem tem maior renda aprende, em geral, mais do que os que têm menor renda.

E finalmente, como alerta o economista Delfim Neto parece haver problemas com a própria estatística:

“O problema é que o IDH incorpora indicadores defasados para poder comparar a situação dos países (hoje, 187) com a plena disponibilidade dos elementos estatísticos necessários. Isso prejudicaria o Brasil, porque a qualidade e a disponibilidade de nossos dados são melhores. É o caso, por exemplo, dos números da educação: para “uniformizar” os dados dos 187 países, o IDH foi construído com os números de 2005, o que deixa de medir os substanciais progressos que vimos obtendo desde então.”

Estatísticas… cuidado com elas!

O impacto da renda não é desprezível. O IDH do Distrito Federal é o maior do país. Mas note:

“O DF apresentou o melhor índice do país nos dados divulgados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) em conjunto com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e a Fundação João Pinheiro (FJP). O estudo da Codeplan revela que o componente que mais distancia o DF do restante do Brasil é a renda.”

Parece, portanto, que para melhorar o IDH seria de grande ajuda se o salário (e as condições de vida) da população melhorasse. A educação também agradeceria. Não vai bastar, mas os dados mostram que seria muito bem vinda.

Isso pode ser corroborado com o seguinte:

“Ainda que tenha evoluído neste ano, o IDH brasileiro despenca para 0,519 (desvalorização de 27,7%) quando são considerados indicadores que medem a desigualdade social.”

Parece claro que:

 “Alguns dados do IBGE revelam que o Brasil alcançou um aumento razoável nos indicadores sociais, porém não houve progresso na distribuição da renda, pois a minoria dos brasileiros possui altos salários e a maioria ganha pouco ou nada.”

Essa estória de culpar a educação pode se ampliar com a desaceleração agora dos BRICs. Este foi o caminho que os empresários seguiram nos Estados Unidos a partir da década de 80 quando a economia americana começou a desaquecer. Até hoje culpam a qualidade da educação pela queda da competividade americana na produção. Curiosamente, durante este tempo a educação foi posta sob ferrenho controle dos empresários, em especial através da Lei de Responsabilidade Educacional americana.

Portanto, não será estranho se a conversa aparecer por aqui também no momento em que um ciclo maior de desaceleração do Brasil se apresentar. Quando a economia acelera, somos culpados na área educacional por não fornecer mão de obra suficiente; quando ela desacelera somos culpados por ter diminuído a competitividade internacional.

Talvez se os economistas que estão atuando na área da educação voltassem a cuidar do seu pedaço, da economia, poderiam evitar o ciclo de desaceleração. De quebra, deixariam os educadores fazerem seu trabalho adequadamente.

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Prof.Dr.Luis Carlos de Freitas – professor da Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, foi diretor da Faculdade de Educação/Unicamp. Blog Avaliação Educacional

 

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